No princípio, e por muito tempo de sua existência, o cangaço, pela
brutalidade que o envolvia, era um mundo único e exclusivo dos homens,
sobretudo homens destemidos. A mulher era figura descartada nesse meio.
Quase todos os grandes cangaceiros que atuaram antes de Lampião tiveram
mulheres e filhos, porém, as "esposas" não acompanhavam seus "maridos".
A
mulher permanecia sempre em um lugar fixo e com a identidade
resguardada, esperando que um dia pudesse ver, mesmo que só por alguns
minutos, seus amores guerreiros.
Para alguns cangaceiros a entrada
das mulheres nos bandos foi vista como a decadência e desgraça do
cangaço; para outros, as mulheres vieram aplacar a fúria assassina e o
desejo sexual disforme que tanto feriu e humilhou as famílias
nordestinas. Com a chegada e a permanência feminina, os cangaceiros
adquiriram mais respeito com as mulheres, diminuindo consideravelmente
os terríveis estupros.
O cangaceiro Sebastião Pereira da Silva, o
famoso Sinhô Pereira, único cangaceiro que chefiou Lampião, fez a
seguinte declaração: "Eu fiquei muito admirado quando soube que Lampião
havia consentindo que mulheres ingressassem no cangaço. Eu nunca
permiti, nem permitiria. Afinal, o padre Cícero tinha profetizado:
Lampião será invencível enquanto não houver mulher no seu bando".
Já
o ex-cangaceiro Balão declarou em uma entrevista para o jornal Estado
de São Paulo que, enquanto não apareceu mulher no cangaço o cangaceiro
brigava até enjoar. Depois disso, os mesmos passaram a evitar os
tiroteios e os bandos batiam logo em retirada para que fosse resguardada
a integridade física das companheiras. As mulheres tinham a resistência
e a valentia dos homens, mas, muitas vezes, atrapalhavam nas fugas e
andanças por ficarem doentes ou grávidas.Neno Canuto
Exposição em Paulo Afonso sobre Maria Bonita e a interferência feminina entre os cangaceiros.
Apesar
de todos esses contratempos, a mulher conseguiu transpor as barreiras
impeditivas que as afastavam do cangaço. A pessoa de Maria Gomes de
Oliveira, primeira mulher a fazer parte de um grupo de cangaceiros e por
ser a companheira do chefe supremo do bando, coube-lhe a alcunha de
"Rainha do Cangaço".
Com a entrada de Maria Gomes, tantas outras
Marias seguiram as estradas desconhecidas do cangaceirismo, tais como
Mariquinha (de Ângelo Roque), Lídia (de Zé Baiano), Adília (de Canário),
Catarina (de Nevoeiro), Nenê (de Luiz Pedro), Naninha (de Gavião),
Durvinha (de Moreno), Sila (de Zé Sereno), Inacinha (de Gato), Aristéia
(de Catingueira), Dulce (de Criança), Maria (de Juriti) e Maria (de
Pancada).
Os fatores que levaram tantas mulheres a seguirem esse
modo vivendis precisam urgente de uma nova análise histórica; uma nova
busca nas fontes e informações das pessoas que viveram aquele conturbado
período; um tempo de luta e tristeza, tudo acontecido nos carrascais do
nosso Sertão nordestino.
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